As mais das vezes considero que este meu espaço tem poucos leitores, o que poderia até afectar o ânimo e o alento para continuar a dedicar tanto tempo a expor o meu mundo, a dedilhar tantas palavras.
No entanto, há dias como hoje, em que me apercebo que o meu mundo, que eu por vezes considero detentor de pouca doçura, tem afinal muitos seguidores. Seguidores a quem desperto a curiosidade com os meus enigmas... Isso lisonjeia-me.
Hoje... Não obstante, ter ocorrido uma situação que outrora consideraria embaraçosa, hoje, só hoje, porque o dia foi difícil por si, fez-me rir! Isto até se tornou engraçado. Estupidamente engraçado.
Devo satisfações, nesta minha vida, sobre o mundo, a muito pouca gente, gente aliás, que me merece respeito e, a quem dedico explicações sobre o que quer que seja. Porém, a minha liberdade termina no preciso limite em que afecta a liberdade alheia. Assim, decidi explicar-me.
Desde há uns tempos para cá, que escrevo ao A.... E isso já suscitou os mais variados comentários, que me divertem, surpreendem e intrigam, até. Curioso. Uma história tão inofensiva, que atingiu contornos tão tenebrosos... À partida, dado a minha enorme imaginação e a necessidade intrínseca, que sempre senti, de viver vidas para além da minha, porque não caibo toda em mim, nunca fez mal a ninguém. Mas, agora parece-me que sim. Que feriu susceptibilidades, ao ponto de extravasar as minhas linhas e fugir ao controlo dos meus dedos.
Vamos lá a ver se nos entendemos... Meus queridos, o meu "A...", que é só meu e não partilho com ninguém, pelo menos com conhecimento de causa, não tem por nome próprio, como será óbvio (pelo menos era o que eu pensava), nenhum nome que comece, efectivamente, por "A...". Se eu quisesse que fosse facilmente identificável, que fosse conhecido, que qualquer um dos que me lesse e associa ao blog a face por detrás da foto negra, dos que me conhecem, eu escrevia o nome (isto também me parecia muito fácil de entender, pelo visto não é...). Desta forma, o meu A..., que pára muito pouco por estas bandas, e que me recuso a partilhar com o mundo social real, podendo ser, apenas e só, uma personagem ficcionada, comenta-me os textos, lê-me e em parceria, embrenha-se-me por de entre os meus textos, sabe-se destinatário de todas e quaisquer letras que lhe sejam dirigidas, e não tem entrave algum que o sustenha, que o impeça de estar e pertencer no meu mundo, real ou virtual. Não obstante, as asas que o não me prendem são demasiado grandes, levam-no para demasiado longe, por tempo demais. Por isso, sei que estamos condenados ao fracasso desde o primeiro momento, por todas as razões e mais algumas, porque tenho raízes demasiado encravadas na terra que me deu o ser, ainda que isso me custe visceralmente, e me afecte a ligeireza dos dias.
Nos entretantos, sozinha que ando, vagueando nos dias e nas noites, rodeada dos amigos mais próximos, mais estranhos, menos convencionais até, associado à necessidade que o comum dos mortais tem de se imiscuir em assuntos que não os seus, seja por viverem vidas demasiado interessantes, seja por serem naturalmente curiosos, vão-me inventando namorados, a torto e a direito, indiscriminadamente, a atirar para todos os lados, como se por imposições de recato convencional, tivesse de me condenar a uma reclusão que a minha personalidade obsessivamente social, me não permite. Nada de anormal. A isso eu já me habituei, e já aprendi a ignorar. "Vozes de burro não chegam aos céus", e com boatos, de uma forma ou de outra, toda a gente tem de aprender a conviver. Ninguém vive numa redoma de vidro. Se me falam da vida é porque ela deve ter algum interesse, ainda que assim não o seja realmente, pior seria passar despercebida no meio da multidão, ninguém me conhecer os traços, ser ignorada pelos demais. Pelo visto, não é assim. Como tudo, tem o lado positivo e o lado negativo.
Nada de extraordinário. Agora, essa capacidade extravasou os limites do bom senso, e imputam-me relacionamentos promíscuos, tentado a custo, fazer-me assumir papéis terciários, em vidas secundárias, usando ao sabor das conveniências os textos que são meus, e partilho até agora, a gosto, com toda a gente que os queira ler, por não ter nada a temer, e não haver vergonha que me trave os voos linguísticos. Era só o que me faltava... Mas, não se enganem, eu escolho o que quero contar, os pormenores que quero revelar, crio e fantasio o que me aprouver, o que a escrita me permitir, e o tempo puder facultar. Não me intimidem o instinto. Deixem-me lá estar sossegadita no meu mundo, leiam o que quiserem, daí a navegarem por mares que desconhecem... É um risco, é certo.
Pela primeira vez, não obstante todas as vicissitudes, pensei em encerrar o blog, fechar-vos a janela. Isso seria dar importância, contudo, a situações que o não merecem, nem eu tenho paciência para deixar que outras pessoas me dominem os passos e as decisões, quando as personagens em causa não me habitam o espaço. Esse pensamento porém, esvaiu-se nesta minha necessidade de morar aqui. Gosto tanto deste espaço que o não consigo matar assim, por ter sido envenenado, vil e cruelmente. (Assim de repente, solta-se-me a gargalhada pelas associações que são criadas, como teias, à volta das minhas palavras... Hilário! É demasiado fácil acreditar-se em algo quando assim se pretende.) Criava outro que ninguém conhecesse, talvez... E perdia os meus desconhecidos visitantes, no mundo da blogosfera, que entretanto, rapidamente me esqueceriam, e hoje já perdi um amigo (de quatro patas), não me apetece perder mais nada.
Quanto a ti... Ao A... que não é A..., mas que passou a ser, e isso, lamento, não vai mudar, ainda que tão longe, tenho-te preso sob as minhas tão pequenas asas, perto e apertadinho nos meus pensamentos. Continuo na crueldade da incerteza no abismo a que me vetas, de sentir-te aqui e lá, de não poder fugir contigo para a ilha, de te ver partir, intermitentemente da minha vida, a magoares-me nos silêncios e nas ausências a que me condenas, pela tua frieza de pensamento, e domínio de racionalidade.
Rir-te-às da situação, reacção a que já me habituaste, ao seres confrontado com as minhas historinhas, deste cantinho à beira rio plantado, a trucidar com desdém as estórias pequeninas que, afinal, acabam sempre por me afectar. Será só mais um argumento, ao qual me recuso a ceder, de te seguir os passos, de me deixar carregar nas tuas asas, como se eu fizesse parte desse mundo, que sinto, nunca será o meu, como nunca foi.
A custo, torna-se imperativo redimir-me à tua razão... Ainda que tu também não caibas aqui, e eu não tenha como te fixar à terra que só queres ver do alto dos teus comandos, "I wish you were here"... Hoje, creio que mais que nunca, para me sentir protegida, ainda que nos meandros inatingíveis da tua altivez. Um dia, vou conseguir abrir as mãos de ti, não ficar à espera que regresses, sem esperança alguma que te atraia a ideia utópica de criar raízes.